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Álcool em tempos de COVID

Pode não se estar a passar contigo, mas certamente terás um ou mais amigos, conhecidos ou familiares que desde a quarentena aumentaram o seu consumo de álcool.

As justificações são as mais variadas… algumas menos válidas do que outras! De qualquer forma e independentemente da motivação que leva ao consumo alcoólico, a moderação é SEMPRE a chave do equilíbrio. Até à data, segundo alguns estudos um pouco limitados, em Portugal parece não estar a haver um aumento dramático, mas em vários países o consumo de álcool desde o inicio da pandemia tem tido um impacto importante e considerada uma preocupação de saúde pública.

Existem pessoas que acreditam que beber determinados tipos de produtos alcoólicos especialmente os de elevada concentração, como medronho, cachaça ou aguardentes, conseguem prevenir ou tratar a infecção pelo coronavírus. É verdade que álcool [a uma concentração superiores a 60% por volume] funciona como um desinfetante para a pele, mas não tem esse efeito dentro do nosso organismo quando ingerido.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) o consumo de álcool não mata o vírus no ar inalado, não desinfeta a boca e garganta nem oferece nenhum tipo de proteção contra a COVID-19, apesar de algumas crenças populares.

Infelizmente o consumo de álcool não protege contra a COVID-19, nem destrói o vírus em circulação ou impede o contagio pelo ar inalado. Muito pelo contrário, aumenta os riscos para a saúde se a pessoa contrair o vírus, pois é uma substância nociva que tem um efeito adverso em quase todos os órgãos do corpo, sendo que o risco de danos para a saúde aumenta com cada unidade de álcool consumida. O seu uso excessivo é um fator de risco para a síndrome do desconforto respiratório agudo, uma das complicações mais graves da COVID-19.

Para além de não ajudar na prevenção ou cura, o álcool, se consumido de forma regular ou abusiva, debilita o sistema imunitário, reduzindo a capacidade do nosso organismo se defender contra doenças infecciosas, como é o caso da COVID-19, mas comum a todas as outras.

Embora possa ajudar a adormecer mais rapidamente, o álcool perturba a quantidade e qualidade do sono, especialmente da fase REM, a qual tem uma importância extrema no processamento das memórias e conhecimentos, na estabilidade emocional, psicológica mas também no equilíbrio físico e energia de dia a dia.

O efeito desinibidor do álcool é um dos grandes motivos associados ao aumento de consumo nesta fase em particular, acreditando erradamente que fará sentir melhor, ajudará a esquecer os problemas, a adormecer o medo ou a anestesiar a ansiedade. Mas a verdade é que também altera o pensamento, o discernimento, a tomada de decisões e o próprio comportamento que levam ao incumprimentos das normas de segurança, como quebra de medidas de quarentena, isolamento,  etiqueta respiratória e distanciamento social. Mais grave ainda, o seu consumo está associado ao aumento da violência de uma forma geral contra o próprio ou interpessoal, como a violência doméstica, sexual, juvenil ou maus-tratos contra idosos e até mesmo contra crianças, sendo é responsável pelo aumento dos níveis de criminalidade e sinistralidade rodoviária.

O consumo de álcool pode intensificar o medo, a ansiedade e a depressão, sobretudo quando as pessoas estão isoladas, e não deve ser usado como estratégia para lidar com as emoções ou o stress. Ficar isolado e beber pode aumentar o risco de suicídio.

Hoje em dia o apoio online pode ser sempre uma solução para ti que achas que estás a começar a beber mais da conta ou para alguém próximo que esteja a perder o controlo.

Torna-se igualmente importante compreender que estas bebidas são extremamente calóricas, portanto péssimo inimigo da perder e controlo de peso. Na maioria delas, a grande fatia das calorias provém exatamente do álcool existente na composição de cada bebida. Contudo, nos vinhos licorosos, licores, sidras e alguns espumantes, mas também sangrias, caipirinhas, mojitos ou outros cocktails, o peso do açúcar também é considerável. De facto, um grama de álcool equivale a 7 kcal, enquanto a mesma quantidade de açúcares corresponde a 4 kcal.
Além disso, é fundamental considerar as diferentes porções de cada bebida que são ingeridas. Um licor ou um whiskey tende a ser consumido em menor quantidade que uma sidra ou uma cerveja, por exemplo.

Aqui ficam algumas bebidas alcoólicas e respetivas calorias por porção (bebida padrão), só para teres uma ideia:

  • Cerveja|Mini|Imperial [200ml]: 64 kcal
  • Cerveja|Média [330ml]: 106kcal
  • Sidra [330ml]: 198 kcal
  • Vinho do Porto [50ml]: 74 kcal
  • Espumante [150ml]: 105 kcal
  • Whiskey [50ml]: 110 kcal (++ álcool, – quantidade)
  • Vinho Tinto|Branco|Rosé Seco [200ml]: 140 kcal
  • Sangria [200ml]: 150 kcal (+ quantidade, + açúcar)
  • Gin tónico [50ml de mim + 200ml de água tónica]: 184 kcal (+ álcool, + quantidade)
  • Licor de anis [50ml]: 192 kcal (++ álcool, + açúcar)

Assim sendo, quando escolheres uma bebida alcoólica prefere as que apresentam uma graduação mais baixa e tenta não exagerar nas porções. Se gostares mistura o álcool com um refrigerante o que pode ajudar a reduzir o consumo de álcool em si. Neste caso opta pelas versões zero, sem açúcar, ou por água lisa, com gás ou das pedras.

Outra sugestão é intercalares o consumo de álcool com um copo de água, nos momentos em que o consumo vai ser superior a um copo, como o caso destas épocas festivas que ainda mal terminaram.

Qual a quantidade máxima recomendada? Vê abaixo:

  • Homens entre os 18-64 anos a quantidade máxima diária recomendada são 2 bebidas padrão* ou o equivalente a 20g de álcool puro.
  • Homens a partir os 65 anos, a quantidade máxima diária recomendada reduz-se para 1 bebida padrão ou o equivalente a 10g de álcool puro.
  • Mulheres, a quantidade máxima diária recomendada é 1 bebida padrão ou 10g de álcool puro em qualquer idade.

SABIAS QUE ?

O álcool é a terceira principal causa de doença e morte prematura a nível mundial? E o terceiro principal fator de risco de morbilidade na Europa?
Que Portugal é um dos países com maior consumo de bebidas alcoólicas?
Pois… tendo em conta estas premissas temos de redobrar a atenção a nós e aos que nos rodeiam!

Fica sóbrio para que possas manter-te alerta, agir rapidamente e pensar com clareza antes de tomar decisões, por ti e por todas as outras pessoas da tua família e comunidade.

Conseguindo ser ou não funcional no dia a dia com a ingestão que o organismo está “habituado”, a longo prazo há consequências a nível de saúde e por isso é fundamental não perder o controlo!

No nosso país o confinamento e o distanciamento social tiveram um impacto considerável no consumo de álcool segundo um inquérito nacional realizado pelo Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD). As boas notícias é que ainda assim se constatou uma diminuição da frequência de consumo de bebidas alcoólicas, em determinados grupos populacionais específicos (nomeadamente os mais jovens com idades entre os 18-24 anos, os estudantes e quem continuou a trabalhar fora de casa durante o confinamento obrigatório de Março de 2020). As razões invocadas pelos inquiridos para beber menos são o não ter a companhia das pessoas com quem costumava beber (45%), o gostar de beber apenas fora de casa, em ambiente festivo (35%) e o procurar um estilo de vida mais saudável possível devido à pandemia (34%).

Quem mais aumentou o consumo de álcool durante o confinamento em Portugal foram inquiridos com idade entre os 25 e 44 anos, com maiores qualificações académicas, em tele trabalho parcial ou trabalho exclusivamente em casa, assim como com maior stress, ansiedade e receio relacionado com a pandemia ou com maiores preocupações com os efeitos económicos. Afectou também mais quem já bebia numa base semanal ou quase diária, quem já tinha tido ou ainda se deparava com problemas ligados ao consumo de álcool e indivíduos do sexo masculino.

As principais razões são atribuídas sobretudo ao maior tempo livre e ao consumo de álcool ser facilitador de estados de humor de relaxamento ou de animação, o que é coerente com as associações identificadas aos níveis de stress ou preocupação com o impacto financeiro.

Resta saber se após o confinamento se continuaram a registar os mesmos padrões, uma vez que o estudo teve um período de recolha de dados online de Abril a Maio 2020 apenas e se a amostra de de pouco mais de 900 pessoas foi representativa.

Deixo abaixo algumas indicações da OMS sobre comportamentos a evitar:

  • Se não bebes, não deixes que nenhum suposto motivo ou argumento relacionado à saúde te convença a começar a beber.
  • Se beberes, consume o mínimo possível de álcool e evita ficar embriagado.
  • Não use o álcool como forma de lidar com as tuas emoções nem com o stress.
  • Evita utilizar o álcool como um gatilho para fumar, e vice-versa. O tabagismo está associado a uma evolução mais complicada e perigosa da COVID-19.
  • Nunca mistures álcool com medicamentos, mesmo os de venda livre, pois pode torná-los menos eficazes ou elevar a sua potência a um nível no qual se tornam tóxicos e perigosos.
  • Evita “armazenar” bebidas alcoólicas em casa. Teres álcool disponível pode aumentar o seu consumo assim como o consumo por outras pessoas da casa.
  • Se vives com crianças e adolescentes em casa tem em atenção  para que os jovens não tenham acesso livre ao álcool e evita que elas te vejam a beber: Sê um bom exemplo e evita o inicio de consumo precoce!

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